Mons. João Scognamíglio Clá Dias, EP

 

 

 

 

Pentecostes no século XXI

Pentecostes – Catedral de Valência – Espanha

   Como criaturas humanas que somos, habituados às coisas sensíveis, ou seja, ao que vemos, ouvimos ou apalpamos, vivemos muito mais voltados para a matéria do que propriamente para o espírito; por isso tendemos a crer apenas naquilo que é concreto, como o Apóstolo São Tomé que, ao receber a notícia da Ressurreição de Nosso Senhor, disse: “Se não vir nas suas mãos o sinal dos pregos, e não puser o meu dedo no lugar dos pregos, e não introduzir a minha mão no seu lado, não acreditarei!” (Jo 20, 25). Assim somos nós: queremos comprovar para acreditar. Esquecemos, todavia, que uma vez demonstrado um fato, a razão conclui ante as evidências e torna-se desnecessária a crença; pelo contrário, a fé é justamente uma virtude que nos leva a aceitar aquilo que ultrapassa a nossa constatação, segundo lemos na Escritura: “A fé é […] uma certeza a respeito do que não se vê” (Hb 11, 1).

Deus é todo-poderoso

   Custa-nos, neste sentido, compenetrarmo- -nos de um ponto, que é o da onipotência de Deus, embora sempre proclamemos no início do Credo: “Creio em Deus Pai todo-poderoso”. Até os Apóstolos se defrontavam com esta dificuldade, como se infere daquela passagem do Evangelho na qual, tendo o moço rico resolvido conservar seus bens e não seguir o Mestre, Ele disse: “É mais fácil passar o camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Lc 18, 25). Surpresos, os discípulos perguntaram: “‘Quem então poderá salvar- -se?’ Respondeu Jesus: ‘O que é impossível aos homens é possível a Deus’” (Lc 18, 26-27).

   Devemos, portanto, colocarmo-nos diante desta perspectiva: Deus é todo-poderoso! Ele tirou do nada o universo, uma multidão de criaturas! Se, por exemplo, temos oportunidade de observar as formiguinhas que se preparam para o inverno, levando folhas e alimento para o formigueiro, tomamos isto com naturalidade e não refletimos que é o Criador quem as sustenta, bem como a todos os demais seres: pedregulhos, árvores, insetos… tudo! Nós mesmos existimos, estamos cheios de vitalidade e somos capazes de ler este texto, porque Deus mantém a cada um.

   Com seu poder absoluto Ele formou um boneco de barro que artista nenhum conseguiria imitar; depois, soprou-lhe nas narinas e a figura adquiriu vida (cf. Gn 2, 7), gozando de inteligência, vontade e sensibilidade, num corpo perfeito. Mais ainda, além de ser dotado de uma alma espiritual, o homem possuía o estado de graça, com todos os dons sobrenaturais acrescidos dos preternaturais, como o dom de integridade, que o impedia de apetecer o mal, a não ser que “se rompesse previamente a harmonia resultante da sujeição de sua razão superior a Deus”;1 o dom de imortalidade, mediante o qual não morreria, mas passaria desta vida para a outra, no Céu, sem a dolorosa separação da alma e do corpo; o dom de ciência infusa que, na qualidade de rei da criação, lhe conferia o conhecimento de todas as coisas e das razões pelas quais Deus as fez. Quando os animais se enfileiraram diante de Adão para que lhes desse nome (cf. Gn 2, 19-20), ele os designou com o título correspondente àquilo que compreendia da essência de cada um: leão, tigre, avestruz, formiga… Todas estas maravilhas o primeiro homem as recebeu através de um sopro divino! Por quê? Porque Deus é todo-poderoso!

Um plano manchado pelo pecado

Jesus lava os pés dos Apóstolos – Museu Diocesano, Palma de Maiorca Espanha

   Não obstante, o plano concebido por Deus, ao dar a existência ao homem, foi desfeito pelo pecado. Em consequência, Adão perdeu o dom de integridade, a imortalidade, a ciência infusa e… sobretudo, a graça! A partir dele toda a sua posteridade nasceu com a mancha da culpa original e se foi multiplicando uma descendência, com algumas exceções, terrivelmente criminosa. Sobreveio o dilúvio, a Torre de Babel, e horrores sem conta acumularam-se ao longo de milênios de História, em que a decadência se fazia sentir a cada passo. Por fim, na plenitude dos tempos, a humanidade foi redimida pelo Sangue preciosíssimo de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas, apesar desta restauração, as gerações que se sucederam após a vinda do Messias, em sua maioria, voltaram as costas para os méritos infinitos da Paixão e afundaram novamente no vício; “o mundo não O reconheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não O receberam” (Jo 1, 10-11). A própria natureza humana vai se deteriorando: enquanto no Antigo Testamento as pessoas possuíam uma grande resistência física, que lhes permitia viver centenas de anos – como aconteceu a nossos pais, Adão e Eva, ou a Matusalém (cf. Gn 5, 5.27) –, no presente, a expectativa de vida do homem está entre setenta e setenta e cinco anos.

   Além disso, a força de vontade e a constituição psíquica sofreram significativa degradação. Na sociedade antiga, muito mais orgânica que a de hoje, o equilíbrio nervoso e mental era mantido com mais firmeza; em nossos tempos, em meio à agitação da vida, diminuiu a estabilidade. Em síntese, a virtude vai desaparecendo da face da terra, o belo está se despedindo do gênero humano. Assim, encontramo-nos numa situação dramática, talvez pior do que quando o Verbo Se encarnou para pregar o Evangelho e morrer na Cruz.

A mística atualidade da Liturgia

   Ora, que relação têm estas reflexões com a Solenidade de Pentecostes? A consideração das festas litúrgicas não deve ser focalizada como um mero exercício de memória, de maneira semelhante a alguém que, chegado o aniversário de falecimento de um parente ou amigo, toma uma fotografia deste e relembra quanto ele era bom, mas depois continua seus afazeres sem dar mais importância ao fato. Se é verdade que na Liturgia cabe, em parte, também a recordação, no entanto há uma atualidade mística que se verifica no momento da Santa Missa, trazendo uma participação real, autêntica e direta nas graças distribuídas naquele dia – hoje, em concreto, a efusão do Espírito Santo –, porque nos congrega em torno de Cristo vivo, e não constitui apenas uma reminiscência do período em que Ele estava na terra.

   Tal é a doutrina da Igreja, conforme ensina o Papa Pio XI na Encíclica Quas primas: “Para instruir o povo nas coisas da Fé e atraí- -lo por meio delas aos íntimos gozos do espírito, muito maior eficácia têm as festas anuais dos sagrados mistérios que quaisquer ensinamentos, por autorizados que sejam, do Magistério Eclesiástico”.2 E o Papa Pio XII, na Encíclica Mediator Dei sobre a Sagrada Liturgia, afirma: “O Ano Litúrgico, que a piedade da Igreja alimenta e acompanha, não é uma fria e inerte representação de fatos que pertencem ao passado, ou uma simples e nua evocação da realidade de outros tempos. É, antes, o próprio Cristo, que vive sempre na sua Igreja e que prossegue o caminho de imensa misericórdia por Ele iniciado, piedosamente, nesta vida mortal, quando passou fazendo o bem (cf. At 10, 38) com o fim de colocar as almas humanas em contato com os seus mistérios e fazê-las viver por eles, mistérios que estão perenemente presentes e operantes, não de modo incerto e nebuloso, de que falam alguns escritores recentes, mas porque, como nos ensina a doutrina católica e segundo a sentença dos Doutores da Igreja, são exemplos ilustres de perfeição cristã e fonte de graça divina pelos méritos e intercessão do Redentor; e porque perduram em nós no seu efeito, sendo cada um deles, de modo consentâneo à própria índole, a causa da nossa salvação”.3

A Igreja pede para “agora” as graças concedidas no Cenáculo

Vitral do Altar da Cátedra – Basílica de São Pedro

   Não nos é dado penetrar integralmente em todo o significado e substância do acontecimento de Pentecostes, visto estar ele cheio de mistério. Na verdade, o que se teria passado com a Esposa de Cristo se não descesse o Paráclito sobre os Apóstolos? Não nos esqueçamos de que – digamo-lo com todo o respeito –, durante a Paixão de Nosso Senhor eles foram covardes, O abandonaram, desapareceram, fugiram (cf. Mt 26, 56; Mc 14, 50). Após a Morte e Ressurreição de Jesus tornaram a reunir-se, desejosos de ver a implantação do reino de Israel sobre todos os povos (cf. At 1, 6), e não do Reino dos Céus que o Divino Mestre havia pregado! Esta é a natureza humana… incapaz, por si, de atos sobrenaturais. Quiçá a Providência tivesse permitido que fossem tão pusilânimes para mostrar qual a distância existente entre a nossa condição – da qual às vezes tanto nos orgulhamos – e a força do Espírito Santo. Com efeito, muitas vezes julgamos que os Santos eram pessoas de vontade extraordinária, graças à qual venceram os obstáculos até conquistarem a coroa da justiça. Ora, nenhum homem, por mais hábil que seja, alcança a perfeição por seu esforço pessoal; só praticará as virtudes de forma estável se assistido pelo Espírito Santo. É Ele quem santifica a Igreja inteira, como se deu naquela manhã, quando o vento invadiu toda a casa onde estavam e as línguas de fogo pousaram sobre a cabeça dos Doze e de seus companheiros, como narra a primeira leitura (At 2, 1-11) desta Solenidade: de medrosos que eram, tornaram-se heróis!

   Ao rezarmos a Oração do Dia, deparamo-nos com um pedido que goza de prodigiosa eficácia, muito maior que todas as nossas preces privadas, já que é uma súplica oficial da Igreja e, portanto, tem audiência absoluta junto ao Altíssimo: “Ó Deus, que, pelo mistério da festa de hoje, santificais a vossa Igreja inteira, em todos os povos e nações, derramai por toda a extensão do mundo os dons do Espírito Santo, e realizai agora no coração dos fiéis as maravilhas que operastes no início da pregação do Evangelho”.4

   Nós, católicos, temos o dom incomparável de pertencer ao Corpo Místico de Cristo e de também recebermos o Espírito Santo pelos Sacramentos do Batismo e, sobretudo, da Crisma, embora não com as espetacularidades ocorridas no Cenáculo. Mas a Igreja implora que “agora” sejam derramadas copiosamente nos corações dos fiéis, por toda a terra, as graças concedidas naquela ocasião aos Apóstolos e discípulos e, a fortiori, a Nossa Senhora.

D. Sérgio Aparecido Colombo administra o Sacramento da Crisma na Basílica de Nossa Senhora do Rosário em 26/11/2016

Um dilúvio de fogo inundará a terra

   Assim, a comemoração da vinda do Espírito Santo nos oferece a solução para todos os problemas do mundo contemporâneo. Muito a propósito escreve São Luís Maria Grignion de Montfort, em sua Oração Abrasada: “O Reino especial de Deus Pai durou até o dilúvio e terminou por um dilúvio de água; o Reino de Jesus Cristo terminou por um dilúvio de sangue, mas vosso Reino, Espírito do Pai e do Filho, continua até o presente e será terminado por um dilúvio de fogo, de amor e de justiça”.5 O fogo queima, aquece e ilumina; e, mais adiante, São Luís Grignion8 acrescenta que ele renova.

   Não é possível que o plano original de Deus para a humanidade não venha a ser realizado por Ele de algum modo. O homem pecou e, como já dissemos, por causa de sua maldade a sua natureza foi se rebaixando. Mas fixemos de novo a atenção na onipotência divina, enquanto aos nossos ouvidos ressoam as palavras de Jesus aos Apóstolos: “O que é impossível aos homens é possível a Deus”. Se o Senhor permitiu tal decadência, teve como objetivo tornar patente, de um lado, o fracasso humano, e, de outro, a plenitude de seu poder. Como deixar clara a autenticidade destes dois polos? O primeiro é evidente, uma vez que ficou comprovado o quanto somos terrivelmente débeis. Porém, é chegada a hora de assistirmos a um advento do Espírito Santo; porque, se foi preciso que houvesse sua efusão na Igreja primitiva para fazê-la passar da infância para o estado adulto, em nossos dias é indispensável que Ele venha para conferir a esta mesma Igreja o esplendor que Nosso Senhor Jesus Cristo desejou ao fundá-la e dar à face da terra um novo brilho!

Pentecostes e nossos dias

   É ainda São Luís Grignion de Montfort quem prognostica uma era histórica na qual as almas quererão praticar a virtude de uma maneira extraordinária. De onde virá esta força? “Enviai o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai”, é o que pedimos há dois mil anos e o que cantamos no Salmo Responsorial (cf. Sl 103, 30). Sim, tudo pode ser renovado, nós podemos ser completamente mudados como o foram os discípulos! Então participaremos, de forma singular, da descida do Espírito Santo sobre Maria Santíssima e os Apóstolos, que hoje celebramos. Devemos nos firmar na fé de que para Deus nada é impossível e Ele está reservando suas mais especiais graças para esta fase da História chamada por tantos Santos de últimos tempos.6

   “Acontecerá particularmente no fim do mundo e, logo, porque o Altíssimo com sua Santa Mãe devem formar grandes Santos que ultrapassarão tanto em santidade a maioria dos outros Santos, quanto os cedros do Líbano suplantam os pequenos arbustos. […] Eles serão pequenos e pobres segundo o mundo […]; mas, pelo contrário, serão ricos em graça de Deus, que Maria lhes distribuirá abundantemente; grandes e eminentes em santidade diante de Deus, superiores a toda criatura por seu zelo animoso, e tão fortemente apoiados pelo socorro divino que, com a humildade de seu calcanhar e em união com Maria, esmagarão a cabeça do demônio e farão triunfar Jesus Cristo”.7

   A humanidade tem uma necessidade vital dessa efusão do Divino Espírito Santo. E esta é a razão de nos reunirmos ardorosamente em torno do altar, para pedir à Mãe das mães, Àquela a cujo amor todos nós fomos entregues pelo Filho no alto da Cruz (cf. Jo 19, 26-27), que, enquanto Mãe do Corpo Místico, obtenha de seu Divino Esposo graças de maior fervor, de maior consolo, de maior piedade, de maior força para enfrentarmos todos os males, e que venha sem tardar o Paráclito e a face da terra seja renovada! (Revista Arautos do Evangelho, Junho/2017, n. 186, pp. 8 à 15)

1 ROYO MARÍN, OP, Antonio. Dios y su obra. Madrid: BAC, 1963, p.466. 2 PIO XI. Quas primas, n.20. 3 PIO XII. Mediator Dei, n.150. 4 DOMINGO DE PENTECOSTES. Oração do Dia. In: MISSAL ROMANO. Trad. portuguesa da 2a. edição típica para o Brasil realizada e publicada pela CNBB com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. 9.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.318. 5 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Prière Embrasée, n.16. In: OEuvres Complètes. Paris: Du Seuil, 1966, p.681. 8 Cf. Idem, n.17, p.681-682. 6 Cf. SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, n.55-59. In: OEuvres Complètes, op. cit., p.520-522. 7 Idem, n.47; 54, p.512-513; 519.

(Extraído de http://www.arautos.org/secoes/artigos/doutrina/comentarios-ao-evangelho/pentecostes-esperanca-para-o-seculo-xxi)